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Projeto 365 – Dia 269 – Monsieur & Madame Adelman

Temos aqui um típico filme francês: uma trilha sonora agradável, uma fotografia linda e uma boa trama. Mas, o destaque maior fica por conta da forma como esse roteiro criou dois personagens tão distintos e que representam tão bem o que é ser um humano.

Sinopse:

Sarah (Doria Tillier) e Victor (Nicolas Bedos) estiveram juntos por 45 anos. No funeral dele, Sarah é abordada por um jornalista que deseja contar a história de seu marido, um renomado escritor, a partir do olhar da mulher que sempre o acompanhou. A partir de então, ela passa a contar as minúcias do relacionamento que tiveram, incluindo segredos bastante íntimos.

Opinião:

O filme “Monsieur & Madame Adelman” traz o já conhecido padrão francês de qualidade. É sempre uma experiência diferente ver a forma como a França cria arte de uma maneira tão sublime e delicada; até mesmo quando mostra a banalidade do dia-a-dia. Esse é o primeiro detalhe que chama a atenção desse trabalho. O jogo de câmera sempre vai estar de acordo com as luzes dos ambientes – até as paredes descascadas de uma casa velha ficam bonitas. É sempre um jogo muito coeso entre a cena criada e seu plano de fundo fotográfico. Preenchendo tudo isso, ainda há a trilha sonora. Um misto de músicas criado por Philippe Kelly que só enlaça com mais beleza a parte técnica desse trabalho.

Agora, nem de longe esses elementos citados acima constroem um filme de maneira isolada. Há sempre uma necessidade de um recheio substancioso e graúdo para que o trabalho seja consistente. Geralmente esse é o trabalho do roteiro; e nesse filme, o roteiro é denso e bem pesado.

A começar pelo ambiente de abertura: um velório. Começamos a trama em um clima tétrico e sombrio da morte de um dos protagonistas. Cena essa que tem um desfecho em um escritório na qual Sarah (Doria Tillier) começa a expor seu lado de protagonista e narradora, deixando o roteiro alinear e com um aspecto de literatura – sim, é um filme com cara de livro, já que as partes da história são divididas em capítulos, criando títulos para cada trecho que virá.

Outro aspecto que traz o elemento literário são os diálogos. Aqui serão feitos diversos tipos de conversas que revelarão a complexidade da trama. Essas conversas serão longas e sempre margeadas de muito sarcasmo, ironia e uma sinceridade dura e hostil. Os personagens desse filme revelam suas personalidades, dando a esse roteiro um aspecto mais próximo da nossa realidade: um misto de falsidade, egoísmo, julgamento e uma busca incessante por ser feliz.

Quem encabeça toda essa conjuntura é a personagem Sarah Adelman. É a atriz que carrega o filme nas costas, criando um personagem controverso e que não liga nenhum pouco para as opiniões externas. Sarah é uma mulher determinada e corajosa que tomará atitudes frias e sem escrúpulos, dando a esse filme uma protagonista que flerta com o antagonismo. É bem interessante acompanhar o caminho que essa personagem vai trilhar, dando ao espectador a oportunidade de saber o que aconteceria com a sua própria vida se ele tivesse tomado atitudes semelhantes.

Do outro lado temos o diretor e ator Nicolas Bedos que dá vida a um escritor, criando ainda mais intimidade do filme com as palavras e arte da escrita. Bedos vive Victor, um personagem que já começa morto, sempre sendo o foco principal das lembranças contadas por Sarah.

Doria e Bedos vão sendo maquiados e modificados para demonstrar os 45 anos que ficaram juntos. Esse trabalho realmente merece um bom destaque, ainda mais no terceiro terço do filme que os atores já estão bem envelhecidos.

Por fim, com um humor ácido e bem intelectualizado, “Monsieur & Madame Adelman” ainda entrega elementos políticos, discussões familiares e um embate de formas de se viver, oferecendo uma obra com um desfecho absolutamente surpreendente e um roteiro digno de representar a nossa raça imperfeita.

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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