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Projeto 365 – Dia 262 – Blade runner 2049

Perturbador, reflexivo e com a capacidade de continuar o clássico de 1982 com maestria.

Sinopse:

California, 2049. Após os problemas enfrentados com os Nexus 8, uma nova espécie de replicantes é desenvolvida, de forma que seja mais obediente aos humanos. Um deles é K (Ryan Gosling), um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles. Após encontrar Sapper Morton (Dave Bautista), K descobre um fascinante segredo: a replicante Rachel (Sean Young) teve um filho, mantido em sigilo até então. A possibilidade de que replicantes se reproduzam pode desencadear uma guerra deles com os humanos, o que faz com que a tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envie para encontrar e eliminar a criança.

Opinião:

Uma missão complicada escolher sobre qual aspecto desse filme comentar primeiro. Temos aqui um trabalho muito rico em detalhes técnicos e emocionais, produzindo uma trama complexa a todos os sentidos (os sensoriais).

Por questões óbvias o primeiro elemento que chama a atenção é o fato de termos uma continuação. Claro que todos sabem que esse filme é o segundo de uma franquia, mas vale mencionar a capacidade ímpar que esse novo roteiro teve de continuar uma história futurística, feita em 1982, que tentava criar um universo que se passava em 2019 – um verdadeiro imbróglio. Digo isso, pois esse novo filme constrói de maneira bem forte uma relação com a sua origem, aproveitando cada gota da fonte criada por Ridley Scott.

Com um ritmo frio, calculista e bem robótico, somos conduzimos de uma maneira bem lenta e quase didática para o tema proposto pelo filme. Tanto os atores — máquinas e humanos — aproveitam o primeiro terço do filme para nos dizer o que aconteceu com o universo 30 anos após o final misterioso e caótico da película original. Vale realmente comentar o trabalho dos atores e atrizes desse filme. Continuamos tendo em cena aquela velha dúvida causada pelo primeiro capítulo: quem é maquina é quem é humano? Algo capaz de sufocar e aterrorizar a mente do espectador mais atento para essa revolução digital que temos nos dias de hoje com internet das coisas e a famigerada inteligência artificial.

Aqui se encontra o coração dessa trama. Desde o original a ideia era nos fazer pensar sobre o papel das máquinas na nossa sociedade. Há tempos que somos expostos pelo cinema, e outras artes, a refletir sobre a capacidade assustadora que esses seres robóticos têm de nos substituir. Ao melhor estilo evolução das espécies de Charles Darwin vamos percebendo que nós, humanos, podemos ser os novos macacos de um planeta caótico e devastado, enquanto os robôs podem ser criaturas cada vez mais parecidas, ou superiores, a nós.

Para ilustrar tudo isso tem Roger Deakins. O diretor de fotografia cria esse cenário apocalíptico e que mescla destruição com tecnologia de ponta. Deakins traz para a trama a resposta para a pergunta que muitos se fazem: onde o mundo vai parar se continuarmos a nos guiar com as rotas atuais. Quem responde essa questão são os cenários: ausência completa de verde, poeira, ambientes lacrados e um mundo desordenado que somente visou o progresso e esqueceu-se do natural.

Colocando de lado que a fotografia é quase um personagem, ainda temos o fato de ela ser uma obra de arte. Temos um caos produzido por mãos habilidosas que gera contraste impactante entre claro e escuro. Uma nítida referência ao trabalho de 1982 que brinca muito com sombras duras e penumbras.

Outro elemento visual que transcende os cenários futurísticos e o caos mundano é o figurino. Renée April honra o trabalho original que foi de Charles Knode e Michael Kaplan. Os trajes desse filme funcionam como a perfeita representação da transição temporal. Somos expostos a roupas que nos lembram de cara a peças do original, como os sobretudos de plástico transparente. Mas também temos novos elementos para dar o toque pessoal renovado a essa trama que pretende dar continuidade sem perder a própria personalidade.

Voltando para a história em si, ainda é preciso entrar mais a fundo nas atuações desse trabalho. O protagonista Ryan Gosling realmente se coloca como um artista de grandes tramas, tendo uma capacidade camaleônica de nos trazer um músico perturbado em La la land, e esse caçador de androide em Blade Runner. O ator é a base do filme e funciona muito bem nas transições das cenas mais paradas para as mais conturbadas. Seus parceiros, embora com uma presença menor em cena, também não fazem feio. Vale uma menção para Harrison Ford em uma das suas melhores atuações, pelo menos no nível de expressão, e também para a humanoide interpretada por Ana de Armas. O fato é, temos aqui um trabalho de atuação digno do roteiro, algo que deixou a desejar no filme original, conseguindo encantar e prender o público de uma maneira mais orgânica.

Ainda sobre a história temos o elemento memória. Algo fundamental tanto para os humanos como para as máquinas. Esse detalhe da trama é o que diferencia das demais ficções científicas. Aqui está a característica que nos faz refletir e também confundir. Seja em dados cerebrais ou digitais, a memória vai determinar o lado lúdico desse roteiro, nos mostrando o valor dos pensamentos e das lembranças. É interessante observar como esse item específico nos junta aos seres feitos de matéria não orgânica, pois assim como nós, humanos de carne e osso, robôs também utilizam memória para processar dados e, por consequência, tomar decisões do que fazer a diante. Está aqui, na memória, a grande chave para entender esse filme e todos os mistérios que se revelarão no decorrer do tempo.

Por fim, até para tentar sintetizar uma obra bem complexa e instigante, Blade Runner tem um papel prioritário que é o de nos fazer refletir sobre o nosso papel nesse mundo. Temos que aceitar que as máquinas invadirão nosso terreno, cabendo a nós escolhermos o que fazer em seguida. Por essa e outras razões que temos um baita espetáculo dentro dessas 2 horas e 43 minutos; capaz de homenagear e dar continuidade a uma ficção científica para lá de perturbadora.

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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