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Projeto 365 – Dia 260 – Como nossos pais

Como é bom ver uma obra brasileira de qualidade. Desse tipo que nos propõem um conflito e que nos faça refletir sobre o que estamos vendo na tela.

Sinopse:

Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, é uma mulher que se encontra em uma fase peculiar de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais: ao mesmo tempo em que precisa desenvolver sua habilidade como mãe de suas filhas, manter seus sonhos, seus objetivos profissionais e enfrentar as dificuldades do casamento, Rosa também continua sendo filha de sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), com quem possui uma relação cheia de conflitos.

Opinião:

É bem nítido que o filme “Como nossos pais” segue a onda do empoderamento feminino. A diretora Laís Bodanzky traz para a tela a visão feminina dos fatos cotidianos, mostrando que o machismo é só um dos problemas que as mulheres tem que enfrentar durante a sua vida. Nesse contexto ainda temos a vida profissional, amorosa, familiar para temperar o roteiro dessa obra brasileira.

No meio desse furacão está Rosa, interpretada pela atriz Maria Ribeiro e que, de maneira bem simples e sem exageros, constrói uma típica mulher com dúvidas e sem pretensão a heroína. Maria Ribeiro tem uma atuação muito segura e encara todos esses conflitos de uma maneira bem real, passando a sensação de que nada vai se resolver sozinho e, pior ainda, que ela deve tomar as rédeas da sua vida e de seus sentimentos. Tudo isso alimenta o roteiro e vai dando margem para que os outros atores também apareçam, usando Rosa de centro/base para os conflitos e diálogos – algo que realmente se aproxima da verdade, já que é sempre a mulher que comanda a base familiar.

Desses atores dois merecem destaque; Clarisse Abujamra interpretando uma mãe ácida, egoísta e frígida é uma aula. A atriz esbanja talento e cria uma configuração cênica completamente pesada e cheia de sentimento. Clarisse (a atriz) consegue brilhar a cada vez que sua personagem aparece na tela, gerando diálogos que somam e elevam o nível dessa obra – não à toa levou um Kikito para casa. O outro destaque fica para Paulo Vilhena. Não considero o trabalho do eterno galã de Malhação como primoroso. Vilhena recebeu um papel cômodo e sem muitas dificuldades, tendo apenas que levar as situações propostas a diante e, principalmente, agir como a maioria dos homens agem frente aos conflitos propostos. Claro que há alguns lampejos de atuação que também garantiram a ele um Kikito, mas ainda acho que o seu trabalho foi menos difícil do que o de muitos personagens desse filme.

No meio desse imbróglio o roteiro oferece algo que, pelos menos para mim, é o principal acerto: o não julgamento. Por mais que Rosa seja o foco e o centro da trama, em momento nenhum o filme a desenha como uma coitada ou sofredora. Rosa está no meio de conflitos de diferentes origens, sendo divididos em os que ela arrumou para si, mas também os que a vida apresentou antes mesmo dela nascer. Isso gera uma áurea muito positiva para o roteiro, já que não temos vilões e nem mocinhos, fazendo com que o espectador absorva a informação e depois reflita sobre os caminhos escolhidos por Rosa e por todos os outros personagens.

Para dar cenário a essa conjuntura temos a cidade de São Paulo. Nesse sentido o filme peca um pouco. Não temos um trabalho de fotografia muito caprichado. Claro que não vemos erros ou falta de cuidado, mas para um filme tão reflexivo deixa um pouco a desejar nos cenários escolhidos e no plano de fundo para a trama. Temos um excesso de cinza que poucas vezes contrasta com outras cores, deixando um enredo urbano pálido e sem vida. É bem perceptível que esse trabalho focou no roteiro e nas diversas histórias que se propunha a contar, além dos conflitos “indoor”; algo que é válido e que não estraga o filme, mas como a fotografia é um aspecto bem importante é interessante mencionar nesse comentário.

Por fim, entre boas atuações e um tema bem absorto “Como os nossos pais”  consegue conquistar. O jeito como não há exageros e nem julgamento é algo bem interessante. É um ato raro vermos pessoas com essa capacidade de criar obras fictícias tão próximas da realidade e, ainda sim, não tomar partido, respeitando a vida como ela é: imprevisível, nada justa e com aquela sensação de que sempre podemos buscar algo melhor para nós mesmos.

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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