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Projeto 365 – Dia 236 – Tartaruga vermelha

Sinopse:

Após sobreviver a um naufrágio, um homem se vê em uma ilha completamente deserta. Lá ele consegue se manter, através da pesca, e tenta construir uma jangada que lhe permita deixar o local. Só que, sempre que ele parte com a embarcação, ela é destruída por um ser misterioso. Logo ele descobre que a causa é uma imensa tartaruga vermelha, com quem manterá uma relação.

Opinião:

Essa é, de todas as críticas já feitas por esse que vos escreve, a única que não começará com uma frase marcante do filme; por razões óbvias, já que essa produção franco-belga-japonesa não possui falas. Por conta disso, resolvi abrir o texto com a trilha sonora composta por Laurent Perez, um dos melhores atributos dessa animação.

Com a leveza de instrumentos utilizados em uma orquestra, a trilha sonora de “Tartaruga vermelha” chama muita atenção. Responsável por dar o tom das cenas, está aqui um recurso valioso utilizado pelo diretor Michael Dudok de Wit para guiar as emoções desse trabalho.

Interligado com a trilha e fazendo um papel de coesão riquíssimo, temos a fotografia. Desculpe o meu deslumbramento, mas a sensação que dá, ao assistir esse trabalho, é a de estar em uma galeria de arte. Temos cenários bem trabalhados, uso de paleta de cores variadas para desenhar o dia e a noite, planos de fundo bem detalhados e uma composição digna de artistas. Um verdadeiro primor. Poesia pura para apresentar a história de um personagem sem nome, sem origem e que foi jogado nessa miscelânea natural que, para manter o suspense, não sabemos onde fica.

Assim como acontece em outras histórias com o tema náufrago, vamos acompanhar a transformação física e psicológica do protagonista dessa trama. Na parte inicial não temos grandes novidades; um conjunto de cenas de caça, construção de jangadas e luta para a sobrevivência são jogadas na tela; sempre com um cuidado ímpar da fotografia e trilha sonora para preencher o espaço vazio da ausência de diálogos.

No entanto, temos aqui uma animação legítima do Studio Ghibli, algo que, simplesmente não permite uma história básica e sem magia.

Em uma dessas cenas tradicionais, o personagem sem nome tenta fugir dessa ilha da solidão. Empoderado de uma canoa feita de bambus, tipicamente asiáticos, ele luta contra o cenário aquático feito com muito esmero pela computação gráfica dos dois estúdios que fazem parceria com o tão famoso Ghibli, “Wild Bunch” e “Why Not Productions”. Nessa luta, ou melhor, lutas, já que o fato se repete algumas vezes, o herói dessa animação tem seu barco destruído por um misteriosa criatura.

A partir desse ponto, o filme começa a ganhar corpo. Temos aqui um divisor de água na construção da personalidade do filme. Dentro dessas batalhas aquáticas, veremos o ódio nascendo no personagem que doravante parecia calmo e sereno. Isso é fundamental para desenhar a continuação desse roteiro recheado de suspense e encantamento.

Esse ódio gerado pela criatura, até então desconhecida, ganha um foco; a belíssima tartaruga vermelha. A relação que esse homem desconhecido tem com esse ser místico é que vai construir o enredo dessa animação. Essa relação ganhará muitos episódios, todos os quais com alto grau de emoção e melancolia, criando um contexto nada infantil e surpreendente no aspecto de realidade.

Toda essa enrolação para não revelar detalhes fundamentais, mas que precisam ser ditos por cima para trazer para esse texto a complexidade que há nessa história. Temos aqui um roteiro bem poético e com vários significados, usando artifícios mágicos e reais, para que a interpretação da história fique aberta e na mão do espectador.

Um desses atributos utilizados, que acabam entrando na categoria detalhe do filme, são as alucinações. Assim como todo náufrago, o personagem acaba entrando em um estado de alucinações, deixando claro que, o que acontecerá da li em diante pode ser real ou não.

Outro bom detalhe dessa trama são os alívios cômicos. Para dar uma quebrada nesse contexto de solidão e suspense, temos os siris. Os crustáceos de aspecto bem feio e com atitudes bem engraçadas, acabam funcionando como um total alívio cômico, provocando empatia e aproximação com esses seres aquáticos.

No mais, temos aqui um filme bem curto, apenas uma hora e meia de obra, que provocará na nossa cabeça um nó bem intenso. Para aqueles que absorverem a mensagem de “Tartaruga vermelha”, sairá recompensado com boas reflexões sobre o que é importante na vida, passando a valorizar o que realmente importa nessa passagem curta que temos por esse planeta. Realmente não temos aqui um filme simples e de fácil absorção, mas vale a pena prestar bastante atenção aos detalhes e tentar compreender o que de fato o filme quer dizer; um excelente filme para ver em dupla e gerar discussões positivas sobre a vida com a pessoa ao lado.

Como sempre, Studio Ghibli é genial!!

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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