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Projeto 365 – Dia 233 – Lion – uma jornada para casa

Sinopse:

Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo (Dev Patel) se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfretou grandes desafios para sobreviver sozinho até ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica.

Opinião:

“Não adotaram somente nós, mas também nosso passado”

Existe uma grande diferença entre assistir e analisar um filme; e, em trabalhos como esse, do diretor Garth Davis, isso fica bem evidenciado. Digo isso pois, para quem assiste e encara essa obra com olhar de diversão, ela é dramática e emocionante. Já para quem analisa, ela é problemática e emocionante.

Ao longo do texto mostrarei detalhes do filme “Lion – uma jornada para casa” e de como essa obra tem um inicio, engasga, mas se encontra.

O primeiro acerto é a fotografia. Desde o início, o diretor de fotografia Greig Fraser (sim, ele dirigi o filme e a parte estética), já mostra que “Lion” terá um olhar atencioso aos cenários e ângulos de câmera. As paisagens aparentemente são colocadas para garantir a parte estética do filme, tendo belas cenas em territórios indianos e australianos. Porém, até pela diferença econômica desses dois países, a fotografia ganha um papel fundamental de expor o contraste social. Aqui estará o principal recurso do filme para mostrar o choque de realidade entre uma sociedade de condições miseráveis, e a outra abastada. Através do olhar do protagonista “Saroo”, vamos vendo o impacto que essas mudanças podem fazer na cabeça de um ser humano.

Outro detalhe diferenciado do roteiro de Luke Davis (roteirista indicado ao Oscar) é a forma como lida com o tempo. Com um primeiro ato bem longo para os parâmetros atuais, o filme “Lion” passa grande parte dessa história na Infância. Graças a isso, o espectador acaba tendo um vínculo maior com o jovem “Saroo”, vivenciando na tela todas as dificuldades que o personagem viveu.

O fato do diretor alongar essa primeira parte gera uma expectativa trabalhosa no processo de edição e aceitação do filme.

E aqui começa o problema…

Claro que o filme tem todo o direito de alongar a parte que ele quiser, o problema está no equilíbrio que essa decisão acarreta, gerando consequências positivas e negativas. De ponto positivo temos o fato da realidade do personagem em cena, algo que em outros estilos de edição ficaria somente na base da suposição ou flash de memória. Porém, como pouquíssimos filmes atualmente se dão ao luxo de ter duas ou até três horas, “Lion” acaba tendo que acelerar aquele que será a principal parte do filme: o miolo dramático.

É no miolo que somos apresentados ao corpo de elenco principal, aos dramas de um jovem que não conhece seus pais biológicos e, a parte principal, o embate psicológico de um rapaz que não obtêm respostas do seu passado e começa uma busca implacável por respostas. Quem tenta alavancar essa história e trazer o drama na direção certa são os atores Dev Patel, que interpreta “Saroo” na fase adulta, Nicole Kidman, mãe adotiva do protagonista e Rooney Mara, namorada de “Saroo”.

O trio, prejudicado pelo tempo de filme e da edição da trama, oferece poucas cenas intensas, algo que seria normal nesse tipo de conflito. Ao invés disso, usa-se o recurso de flashs, suposição e do clássico “anos depois…”.

Repito, óbvio que os responsáveis têm todo o direito de contar a história dessa forma; os atores ainda sim conseguem entregar bons trabalhos e um ótimo conflito, em especial Patel e Kidman; mas fica visível que isso gerou buracos na história.

O maior desses “buracos” está concentrado em um personagem – o irmão adotivo de “Saroo”, Mantosh. Assim como o protagonista, Mantosh também foi adotado da Índia, porém o jovem aparenta ter algum tipo de transtorno psicológico, algo que o filme simplesmente não aborda. Por diversas vezes somos expostos aos problemas que esse jovem causa e, inclusive sendo o pivô de muitos arcos dramáticos do tal miolo dramático que cito acima; mas, ainda assim, o roteirista não se digna a dar um pouco de atenção a esse trecho da história.

A consequência disso, somado ao ritmo acelerado do miolo dramático,  é um roteiro complexo e engasgado, tentando juntar os fragmentos de uma história real e os conflitos que o filme pede.

Apesar de tudo isso, a trama segue um rumo correto, chegando a parte final com um alto nível de carga dramática; algo que acaba compensando as decisões tomadas. A trilha sonora auxilia esse processo de dramatização, compondo bem o filme com músicas instrumentais e ritmos indianos.

Em suma, entre erros graves de time e uma dificuldade para acertar a parte real com o drama criado, “Lion – uma jornada para casa” ainda sim consegue trazer emoção e uma história inspiradora. Realmente a parte inicial, e, principalmente, a final, carregam o filme nas costas, elevando o trabalho a ponto de receber as indicações que receberam. Vale muita a pena observar a explicação que o filme dá sobre o nome “lion”, e ainda a exposição do problema que a Índia tem com crianças desaparecidas. Temos aqui uma história que termina de maneira confortável, pois não representa a totalidade das crianças que buscam os mesmos objetivos, mas ainda sim, serve para dar esperança ao mostrar esse caso com final feliz.

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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