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Projeto 365 – Dia 203 – O Enigma de Kaspar Hauser

“Esses gritos assustadores ao redor são o que chamam de silêncio”

Sinopse:

Jeder für sich und Gott gegen alle (no Brasil, O Enigma de Kaspar Hauser) é um filme alemão ocidental de 1974 (nessa época a Alemanha era dividida em duas), do diretor Werner Herzog. O trabalho, cujo título significa, em tradução literal, “cada um por si e Deus contra todos” narra a história de Kaspar Hauser, uma criança abandonada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século XIX, após viver anos em um cativeiro.

Opinião:

É bem complicado começar um texto sobre um filme que tem tanto a dizer. A própria sinopse já deixa claro que a história conterá muito mistério, sociologia e um ar filosófico que fará com que todos repensem sua posição no mundo e na sociedade existente.

Kasper Hauser simboliza o que o ser humano pode se tornar caso seja condicionado como bicho e/ou não passe por um “esquema” de socialização. E para que fique claro, isso não o torna melhor ou pior, pois um dos méritos do filme é justamente questionar alguns hábitos sociais que nos fazem mal.

Após passar por um processo de “educação”, Kasper começa a questionar tudo o que é ensinado. O foco do filme fica nas questões religiosas, mas também há lampejos sobre espaço da mulher na sociedade, o próprio processo de civilização em si, e uma eterna briga entre o conhecimento empírico contra o acadêmico.

Esse último item é um dos elementos que mais agregam ao filme, tendo uma capacidade ímpar de mostrar aos intelectuais que há muito aprendizado na natureza simples capaz de bater de frente com o conhecimento acadêmico consagrado. Óbvio que a academia não é enxotada, deixando a discussão sempre em níveis altíssimos.

kasper-houser-no-cativeiro

Com o passar do filme, e das discussões, Kasper vai assumindo um ar mais melancólico, da qual vai dificultando ainda mais sua socialização. Aos olhares mais atentos será possível notar sinais claros de depressão e uma dificuldade, quase desumana, de se encontrar. A trama começa a ganhar um tom de aula de psicologia, virando um experimento científico para observar como esse processo de integração, quando mal feito e sem o devido cuidado, pode ser violento e tão prejudicial quanto viver na natureza selvagem.

Para ajudar nessa história misteriosa e tirar a sensação de que estamos em uma sala de aula sobre filosofia aplicada, Herzog traz uma trilha sonora melancólica e sutil, utilizando a música como o elo entre o sentimento e o aprendizado. Esse elemento representará a fusão dos dois lados do cérebro, da qual nos esquecemos ao longo do tempo. A todo instante seremos lembrados que lógica e razão não seriam nada sem emoção.

A fotografia agrega o lado campestre da Alemanha Ocidental. O capricho das cenas e da composição de figurino, mais elementos cênicos, tornam o trabalho ainda mais inspirador. Observando o filme hoje, em 2016, sendo uma obra de 1974, representando uma civilização do século XIX, em momento algum ficamos perdidos ou desorientados.

Nenhum dos atores em cena são brilhantes, todos trabalham para que Bruno Schleinstein (Kasper Hauser) tome conta do espetáculo. Sem exageros teatrais, Bruno traz um personagem amável e misterioso, sempre olhando para o horizonte com um semblante de dúvida.

Por fim, entre embates religiosos e científicos, somos expostos a um mistério real da humanidade. Sim, essa história é verídica e tem um final absolutamente surpreendente, tanto quanto a genialidade da obra Herzog. Merece palmas e todos os louros.

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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