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Projeto 365 – 231 – Até o último homem

Sinopse:

Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico do exército Desmond T. Doss (Andrew Garfield) se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas, porém, durante a Batalha de Okinawa ele trabalha na ala médica e salva companheiros, sendo condecorado. O que faz de Doss o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso.

Opinião:

“Tirar a vida do homem é o pior pecado que alguém pode cometer”

Filmes de guerra tem sempre um padrão. E por mais que se mude o diretor ou roteirista o resultado sempre será próximo do que já foi feito. Claro que isso não prejudica o filme, afinal, por se tratar de um evento tão marcante para o mundo todo, sempre haverá espaços para as milhares de histórias que ainda não foram contadas. O objetivo desse texto é traçar uma linha de análise entre o que já foi feito, e o que esse filme entrega.

A primeira grande característica desse estilo de produção é a parte sonora. Filmes de guerra exigem uma limpeza de som para que possamos escutar explosões e tiros com um impacto ainda mais assustador. Aqui o filme acerta; somos expostos a cenas longas nas trincheiras e podemos ouvir detalhes sonoros dignos de quem estava lá, em plena batalha. A todo instante o áudio traz algo novo para se ater, sendo o grande responsável por nos colocar o pânico e o horror que aqueles homens sentiam. Contudo, sem querer parecer chato ou preconceituoso, isso já foi feito; e muito feito. Os estúdios de Hollywood são mestres quando o assunto é guerra, por mais difícil que seja esse estilo de captação sonora, os editores de som são escolados nessa área. Ou seja, o nível é tão alto que não há como não indica-los a premiações, mesmo se tratando de algo que já tenham feito inúmeras vezes. O resultado é o que importa, e, quanto a isso, não há o que falar.

Outra característica marcante em todas as produções bélicas são os dramas das personagens. Quase todo os seres humanos sofreram direta ou indiretamente com a guerra. Seja por motivos familiares, sociais ou étnicos, todos nós, de alguma forma, sentimos na pele o resultado dessas barbáreis cometidas pelo homem; barbáreis essas que se repetem dia após dia….enfim, não é algo novo. Os roteiristas Andrew Knight e Robert Schenkkan oferecem a esse filme um pequeno conto da segunda guerra mundial, baseando-se em fatos reais para construir uma passagem que compõe todo o conjuntos dessa grande história chamada Guerra.

Repito e ressalvo, não é porque é repetido e consagrado que não é possível se fazer algo de destaque. A linha dramática de “Até o último homem” é bem constituída e usa recursos alineares bem desenhados para criar as personalidades do grande conjunto de personagens que vemos em tela. O foco está em Desmomd Doss, um jovem que por motivos religiosos, familiares e de guerras anteriores (vivida pelo pai) teme o instrumento inventado por Samuel Colt, a arma de fogo.

Aqui entra mais um recurso repetido desse estilo de filme: a religião. Seja qual for, católica ou protestante, os norte-americanos são pessoas que temem a Deus. Isso está intrínseco na constituição daquele país e na história desse povo, portanto, sempre veremos em filmes que retratam o passado essa janela no roteiro. Aqui, em especial, Mel Gibson, diretor do filme, bebe muito dessa fonte. Como já disse, o personagem Desmond é real e suas histórias auxiliaram todo o processo; inclusive sua rejeição bíblica ao não uso de instrumentos que tiram a vida de outro – “não matarás”.

Para reforçar ainda mais o argumento desse texto, aqui vai mais um elemento comum a todos esses filmes – os princípios do personagem principal. Assim como a religião também pode ser enquadrada nesse quesito, o carácter e a teimosia de Desmond já é algo batido nessas histórias. Dentro do roteiro vamos ver inúmeras passagens que testarão essa sua vocação de “opositor consciente”. Nessas passagens é possível ver o bom trabalho que Andrew Garfield realiza para tornar real uma história que parece ficção, tem cara de mentira deslavada, mas que, por mais inacreditável que pareça, é real e tem testemunha oculares.

Por fim, pelo menos dos comentários que comparam produções anteriores, temos o alívio cômico. Esse detalhe em específico é bem batido e quase imutável. O conjunto sargento duro com piadas ditas a frente de soldados perfilados e, o que é ainda mais clichê, namorada esperando o herói de guerra voltar, está presente. Vince Vaughn dá vida a esse sargento que comanda com mãos de ferro o seu batalhão, mas que, vez o outra, acaba usando sua veia cômica para aliviar a tensão natural. Teresa Palmer é Dorothy Schutte, uma jovem enfermeira que simboliza os dois amores do protagonista – a medicina e o amor afetivo. Os dois atores desempenham bem seus papeis, funcionando de forma coesa para juntar a história criada pelos roteiristas e o que existe de verdade dos contos de Desmond Doss.  É um dos méritos dessa produção o bom uso do recurso cômico, dosando bem essa técnica para que o filme seja transformado de um drama total, para um blockbuster digno de altas bilheterias.

Aqui começam os detalhes individuais desse filme. A produção é um deles. Mel Gibson resolveu fazer uma composição com cenas bem macabras e explícitas, mostrando o horror da guerra como exatamente é; o espectador será exposto a decapitações, amputações, explosões de membros, muito sangue e fraturas expostas, além de todo o processo infeccioso que há em um ambiente inóspito como aquele. Tudo isso com um objetivo, já que o filme trata de questões de saúde e do trabalho dos médicos em zonas de guerra.

Mas, não é só isso que se trata a produção. Todo o conjunto da obra agrada. O elenco faz render os 40 milhões de dólares investidos nesse filme e, o que é mais interessante, mostra que havia inteligência dos lados da briga – em especial o detalhamento das estratégias dos japoneses para esperar o inimigo.

A atuação de Hugo Weaving (Tom Doss/pai do protagonista) também é algo que foge do padrão. Com poucas cenas para construir um personagem complexo e importante para trama, o ator esbanja talento ao retratar o típico soldado traumatizado pela guerra, sendo fundamental para a composição da personalidade do personagem de Andrew Garfield.

Em suma, até para não alongar ainda mais esse texto gigante, temos aqui um espetáculo que junta originalidade de uma história incrível, com o habitué tradicional e cliché dos filmes de guerra. Entre cenas poéticas e bem produzidas com ângulos de câmera bem próximos dos atores, vamos conhecendo essa história que de fato convence e atrai. Mas, se olharmos a fundo, com um olhar crítico para o que estamos vendo, beira ao mesmismo.

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About Celso Bove

Celso Bove Publicitário, Webdesigner, Blogueiro, fotógrafo, amante de todos os tipo de arte, em especial cinema. Fundador do Blackcine.

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